A História

Texto: Igor Andrade

A  mesma abertura do mercado que permitiu que a Playtronic fosse lucrativa acabou virando uma vilã para a Estrela, que sempre dominou o setor de brinquedos. Revitalizar era primordial, mas Mario Adler não estava feliz com a situação.
 
Em 4 de abril de 1996, os jornais divulgaram que o proprietário vendeu "85% das ações com direito a voto, equivalentes a um terço do capital total, por R$ 22,5 milhões para Carlos Tilkian, que já era presidente da companhia", como registrou O Estado de S. Paulo. 
 
"A mudança no comando significa que será acelerada a nova filosofia, mais voltada para a área comercial do que industrial. Com isso, deverá se transformar em uma grande importadora de brinquedos até o ano 2000. A produção atual de 50% feita no país será reduzida a 20%, ficando a importação, principalmente da China, com 80%. 
 
Uma das primeiras medidas da troca de comando foi se desfazer da Playtronic, que "tem dado certo até aqui. Só no balanço do ano passado teve lucro líquido de R$ 1,2 milhão. Mas dentro da nova realidade, à Estrela não cabia desperdiçar esforços. Por isso, vendeu os 50% que mantinha na joint venture para a Gradiente por R$ 7,3 milhões", escreveu o jornalista Edilson Coelho.
 
A incorporação, que seria concluída em outubro daquele ano, ocorria enquanto preparavam o lançamento nacional do Nintendo 64, que estava previsto para 30 de setembro, era simultâneo ao lançamento americano, e custaria cerca de R$ 650.
 
Sob a influência de crises externas, como a da Rússia e a da Argentina, o câmbio foi flexibilizado, atingindo em cheio a Gradiente Entertainment. "O mercado foi fortemente afetado pelas adversidade macroeconômicas, que comprometeram o desempenho em 2001. Desde 1999, com a desvalorização do Real e a manutenção do dólar em valores em patamares elevados, os produtos da Nintendo, compostos em sua maior parte por insumos importados, tornaram-se pouco acessíveis aos consumidores", alertava o comunicado que integrava o balanço 2000-2001 da companhia publicado em 29 de março de 2002.
 
"Além disso, em 2001 não foram feitos lançamentos significativos de novas plataformas e títulos de games que impulsionassem as vendas. Em 2002, [atuaremos] com maior força, tendo em vista o lançamento [nacional do] GameCube. Espera-se ainda um aumento significativo nas vendas do Game Boy Advance", previam.
 
Com o tempo, a situação se tornou cada vez mais insustentável, mesmo com o console cúbico nas prateleiras. Em 27 de fevereiro de 2003, os acionistas foram informados sobre o fim da parceria. "A decisão decorre do alto índice de pirataria, da alta taxa de câmbio e da retração da renda da população", tratava o comunicado. Nos meses anteriores, sucessivas promoções já indicavam que algo não estava bem...
 
Steve Singer, então gerente geral para a América Latina, se pronunciou na época. Disse que a Nintendo seguiria um novo rumo, mas que ainda manteria contato com a velha amiga. Chegou a circular que a Estrela assumiria a manufatura, mas nada passou do nível da conversa. Aliás, a própria Gradiente tentaria voltar ao negócio mais recentemente.